Oração do homem e oração de Deus
- O método da oração teofânica
- As homologações
- O segredo dos responsórios divinos
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A oração no pensamento de Ibn ‘Arabī desempenha uma função essencial e paradoxal, pois, em uma doutrina fundada na “unidade transcendental do ser”, ela não é um pedido, mas um modo de existir e de fazer existir o Divino, sendo expressão da imaginação teofânica criadora.
- A criação é compreendida como teofania, isto é, como imaginação teofânica; logo, a oração é o ponto de encontro entre o Criador e a criatura, em uma reciprocidade ontológica que refuta o monismo reducionista.
- “Deus ora por nós”, o que significa que Ele se manifesta em nós e por nós; o ser humano ora ao seu “Senhor pessoal”, não à essência divina oculta, e a forma do orante é o receptáculo da forma divina revelada.
- A oração é um diálogo teofânico que se realiza no plano intermediário da “presença imaginativa” (ḥaḍrat al-khayāl), tendo o coração e a himma como órgãos espirituais de concentração e criação.
- O método de oração de Ibn ‘Arabī, meditado a partir da sūra al-Fātiḥa, consiste em uma liturgia interior de dois coros — divino e humano — em que cada versículo manifesta uma resposta divina e reconstitui a solidariedade entre Criador e criatura.
- A oração é uma “divina partilha” entre Deus e o fiel, em que cada gesto ritual corresponde a uma ação recíproca; o fiel, ao pronunciar a Fātiḥa, recria continuamente o vínculo criador, tornando-se o complemento necessário de seu Senhor.
- O dhikr, como rememoração, é o elemento central da oração íntima (munājāt), implicando um duplo ato de lembrança: do fiel para com o Senhor e do Senhor para com o fiel, configurando uma teofania mental e contemplativa.
- Os três momentos do método de oração — presença, imaginação e visão — conduzem o orante à percepção interior de seu Senhor no coração e à audição da voz divina ressoando em todas as coisas, constituindo o ápice da experiência mística.
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A oração criadora é homologada a uma cosmologia simbólica, na qual cada gesto do corpo reproduz os movimentos da criação, e o orante, em sua solidão, é o Imām de seu microcosmo.
- O fiel, como Imām de seu próprio universo interior, assume a função vicária divina, sendo seguido por “anjos do microcosmo”, isto é, suas potências espirituais e psíquicas transfiguradas.
- As posturas rituais — de pé, inclinação e prostração — correspondem respectivamente às direções de crescimento do homem, do animal e da planta, espelhando os três movimentos da criação divina.
- A oração é assim um “renovamento da criação” (tajdīd al-khalq), uma nova teofania (tajallī) que faz coincidir a ibdāʿ (criação pleromática) e a ʿibāda (serviço divino), revelando a copresença do Criador e da criatura.
- O ato orante do homem é a resposta à oração de Deus (ṣalāt al-Ḥaqq), que é o desejo teofânico do Deus oculto de se manifestar; a oração do homem realiza essa manifestação e torna visível a “Forma de Deus” (ṣūrat al-Ḥaqq) no espelho do coração.
- A contemplação (mushāhada) e a visualização (rū’yā) constituem a etapa em que o orante, mediante a imaginação ativa, vê o Senhor que se mostra a ele, e essa visão é o critério de seu progresso espiritual.
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O segredo das respostas divinas revela a estrutura dialógica da oração, na qual Deus e o fiel alternam os papéis de primeiro e último, de orante e de orado.
- A teofania imaginativa, enquanto oração de Deus, precede e condiciona a oração humana, sendo expressão da atividade criadora do próprio Ser divino.
- A oração é simultaneamente “oração de Deus” e “oração do homem”, como indica o versículo: “Há Aquele que ora por ti e também Seus Anjos, para tirar-te das trevas à luz”.
- Ibn ‘Arabī explora a homonímia de muṣallī — “aquele que ora” e “aquele que vem depois” — para demonstrar que Deus e o fiel trocam os nomes “Primeiro” e “Último”, “Oculto” e “Manifesto”, conforme o movimento de revelação e retorno.
- Quando Deus é o muṣallī, Ele é o “Último”, o Manifesto dependente do ser do fiel, “Deus criado nas fés”; quando o fiel é o muṣallī, ele é o “Último” diante do “Primeiro”, o Deus oculto que o manifesta.
- Assim, a imagem divina criada na fé não é fictícia, pois ela é a imagem pela qual Deus Se conhece e Se revela a Si mesmo; cada forma de fé é uma teofania particular do Único Real (al-Ḥaqq al-Ḥaqīqī).
- O conhecimento gnóstico dissolve os dogmas fixos, pois reconhece que toda crença é uma epifania simbólica, não uma verdade absoluta; o símbolo é decifrado, não refutado.
- A oração íntima, ao substituir a oração coletiva, realiza o processo de individuação espiritual: o fiel liberta-se das normas coletivas e vive em relação singular com seu Deus pessoal.
- O crente não-iniciado, ao não compreender que o louvor a Deus é também louvor de si mesmo, reduz a fé a opinião dogmática; já o gnóstico compreende a reciprocidade criadora: “Eu O faço existir conhecendo-O”.
- A oração criadora exprime a essência-arquétipo (ʿayn thābita) de cada ser; Deus concede ao fiel apenas o que sua hexeidade eterna implica, e o dom supremo é a visão intuitiva dessa hexeidade.
- A teofania é condicionada pela predisposição do sujeito: ele vê sua própria forma, e nessa forma reconhece a Forma divina; Deus é o espelho em que o homem se contempla, e o homem é o espelho em que Deus se vê.
- O fiel e seu Senhor são dois espelhos voltados um para o outro, refletindo infinitamente a mesma imagem — esta é a estrutura da oração criadora, da qual cada teofania é um reflexo recíproco entre o divino e o humano.
- A oração é, portanto, a união dinâmica entre a “oração de Deus” e a “oração do homem”, strophe e antistrophe de um mesmo salmo secreto, em que o adorador é simultaneamente adorado, e o Amante, o Amado.
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